CAPÍTULO 5: DORMINDO NA MESMA CAMA

Se as evidências antropológicas do sono e desenvolvimento infantis fossem integradas e usadas como ponto de partida nas pesquisas sobre o sono dos bebês, não haveria dúvida de que a pergunta a ser feita não é se é seguro que o bebê durma junto à sua mãe nutriz, e sim se é seguro que não durma.

James McKenna (43, pág. 138).

No primeiro mês de nascida, Estela dormiu no mesmo quarto que eu e João, num berço ao lado de nossa cama. Não por ideologia (nessa época, eu sequer ouvira falar em cama ou quarto compartilhado*), mas porque estávamos hospedados na casa de minha mãe, em meu antigo quarto de solteira, no qual ela havia instalado um berço e uma cama de casal. Gostei e me sentia tranquila – com Estela ao meu lado, eu sempre a ouvia chorar à noite.

De volta ao nosso apartamento em Recife, ela, a princípio, continuou ao nosso lado, dormindo em seu carrinho, mas era senso comum, inclusive entre pediatras, a importância do bebê ter “seu cantinho”, a menos, claro, que a família não dispusesse de um quarto livre para ele.

“A Vida do Bebê”, de De Lamare (40), por exemplo, que julgo ainda ser um dos livros mais consultados pelas mães brasileiras, tem uma seção já no início intitulada “O Quarto do Bebê”. Nela lemos o seguinte: “Quando, por problema de espaço, o bebê não puder ter o seu próprio quarto, que ele possa ter pelo menos seu cantinho, isto é, uma parte separada por para-vento”. Após alguma discussão sobre os melhores modelos de berço, segue-se: “De acordo com a situação econômica (o berço), deverá ficar em quarto próprio ou no quarto dos pais ou dos irmãos”.

Ou seja, se o bebê dorme com os pais, nunca será por opção, mas por restrição econômica. E nunca na cama destes, mas sempre em seu bercinho, de preferência isolado por um biombo ou para-vento. Visão compartilhada, por exemplo, pela American Academy of Pediatrics* (1) e, enfim, pela maioria dos pediatras, que alegam que o isolamento promove a independência do bebê e garante a imprescindível privacidade dos pais. O que me lembra de uma piada: a família se muda para uma casa mais espaçosa. A avó vem visitar e pergunta ao neto se ele está gostando da casa nova. Ao que o neto responde, empolgado: “Demais, vovó! Agora, cada um tem seu próprio quarto!” E, depois de uma pausa, pensativo: “Menos o papai, coitado, esse tem que continuar dividindo o quarto com a mamãe…”.

Não parece um contrassenso que se julgue correto e necessário que um bebê recém-nascido aprenda a conviver com a solidão noturna, mas se acredite que a mulher está “descuidando” do marido ao deixá-lo dormir sozinho? Este é que precisa da mulher, mais do que um bebê precisaria da mãe.

Estranhei a separação: havíamos passado mais de um mês dormindo juntinhas. Sentia-me aflita, com medo de não ouvi-la durante a noite. Eu e meu marido compramos a pretensamente indispensável babá eletrônica e parecíamos ter todo o arsenal necessário ao seu “cantinho”, rumo à independência. Mas ela rapidamente retornou ao nosso quarto. Houve duas razões, para mim mais que suficientes, que levaram a essa decisão. O mais prosaico foi que, uma bela noite, a bateria da babá eletrônica acabou sem que eu houvesse percebido. Alta madrugada, Estela trancada em seu quarto, eu e meu marido no nosso, ar condicionado ligado em ambos, acordo com um choro abafado e distante. Corro para o quarto da minha filha para encontrá-la roxa de chorar. Há quanto tempo chorava? Impossível saber. Talvez há muito tempo. Se eu já estava aflita antes, fiquei então raivosa, angustiada, culpada: eu sofria, ela sofria. Em que a separação podia ser boa?

Claro que essa foi uma situação extrema. Mas não posso evitar lembrar-me de um discurso muito difundido, proferido por algumas mães: o de que o bebê dormir separado não influencia em nada nos cuidados noturnos, visto que “basta o bebê suspirar” que elas já se levantam e se põem a postos para atendê-lo. Claro que as mães que se expressam dessa forma têm boa intenção e creem no que dizem. Mais que isso, a maioria das mães é instruída em que esse é o único comportamento aceitável, porque fazer de outra forma é “estragar” o filho. Mas pesquisas apontam para uma verdade diferente.

McKenna (42), em um estudo em seu laboratório do sono na University of Notre Dame, observou uma sincronia de 51% no despertar durante a noite entre bebês e suas mães quando estes dormem juntos (ou seja, em 51% das vezes em que um desperta, o outro também desperta), e de apenas 21% quando o bebê dorme “no seu cantinho”. Portanto, a mãe que pratica CC (cama compartilhada) desperta 30% mais vezes. O bebê que dorme sozinho é menos eficiente em fazer a mãe despertar para atendê-lo.

Na verdade, esse número é uma média de mães que praticam e que não praticam cama compartilhada ao dormirem uma noite com seus bebês. Quando observamos apenas as mães que já têm o hábito de dormir com os filhos, a sincronia chega a 60%, e, em 2/3 das vezes, é o bebê que desperta primeiro. Ou seja, não só a mãe responde mais frequentemente ao bebê pelo simples fato de estar mais próxima a ele quanto, ao contrário de se dessensibilizar ao seu bebê com o passar do tempo, mostra uma sensibilidade aumentada (42).

Além disso, a cama compartilhada tem consequências dramáticas para a amamentação. O bebê que faz cama compartilhada mama duas vezes mais à noite que aquele que dorme no próprio quarto. A duração de cada mamada é parecida nos dois casos, mas o bebê que dorme com a mãe mama em média a cada 97 minutos, e o que dorme só, a cada 187 minutos. Portanto, sim, o bebê que compartilha a cama com a sua mãe acaba recebendo mais atenção que o que dorme só, por mais boa vontade que a mãe deste último tenha, porque não se trata de mera questão de boa vontade, e sim de uma questão fisiológica (42). O bebê que dorme sozinho vai mamar menos vezes, a intervalos maiores.

Podemos dizer que a amamentação exclusiva e prolongada é improvável a não ser na presença da cama compartilhada, e isso devido à própria fisiologia da amamentação. Sabemos que quanto maior o estímulo (i.e., quanto maior a sucção), maior a produção de leite. Sucção constante nos primeiros dias após o nascimento é essencial para assegurar uma produção de leite bem sucedida. A produção é controlada pela prolactina – a mãe produz mais prolactina a cada vez que o bebê suga, portanto a chave para a produção é a sucção frequente. A produção de prolactina à noite é maior, o que torna a amamentação noturna muito importante – a cama compartilhada promove justamente essa amamentação noturna, já que bebês que compartilham a cama de suas mães sugam até duas vezes mais à noite. A estimulação frequente nos primeiros dias após o nascimento garante o elevado nível inicial de prolactina necessário tanto à lactogênese II (a “descida” do leite) quanto ao desenvolvimento dos receptores de prolactina nos tecidos mamários, cruciais para uma lactação prolongada (pois são necessários na manutenção da lactação após a passagem do controle endócrino – hormonal – para o controle autócrino – nervoso) (3).

Amamentação e cama compartilhada são um sistema integrado, reforçam-se mutuamente. A escolha pela amamentação induz à escolha pela cama compartilhada – esta é três vezes mais frequente entre as mães que amamentam (43) –, que, por sua vez, induz a um aumento na frequência, volume e duração das mamadas, estimulando a produção de prolactina, que estimula a produção de leite, e por mais tempo. Ao estímulo fisiológico, soma-se o estímulo comportamental: sem ter que acordar-se totalmente e levantar-se tantas vezes à noite, a mãe é encorajada a amamentar por mais tempo. Ou seja, o bebê precisa do leite materno, e há uma relação fisiológica entre a cama compartilhada e a disponibilidade e oferta desse leite. Há uma relação entre a cama compartilhada e a própria sobrevivência do bebê, pois só com o advento das fórmulas infantis e dos atuais padrões de higiene o desmame precoce tornou-se seguro.

Não praticar CC não impede a amamentação. Mas essas mães enfrentarão condições mais adversas, o que levará a que, mais frequentemente, essa amamentação perca o caráter exclusivo muito cedo (lembrando que o ideal, segundo a OMS, é amamentar pelo menos até os dois anos, sendo os seis primeiros meses em caráter exclusivo).

Na Inglaterra, Ball (3) observou que mães que iniciaram a cama compartilhada no primeiro mês de vida do filho tinham 79% de chances de ainda estar amamentando-o no quarto mês de vida, contra 43% das mulheres que decidiram amamentar na ausência de cama compartilhada.

E, na verdade, foi justamente a amamentação o segundo motivo para trazer Estela de volta para o nosso quarto, e mais, para a nossa cama. Pois eu comecei a ficar exausta com essa questão de ouvi-la chorar, ter que despertar completamente, levantar, ir ao outro quarto, pegá-la no colo, sentar numa cadeira de balanço, amamentá-la, niná-la, devolvê-la ao berço, voltar a deitar, e tentar adormecer para recomeçar em duas horas. Levando em conta que sofro desde criança de uma insônia inicial (dificuldade em “pegar no sono”), quando eu finalmente adormecia, já estava na hora de reiniciar todo o processo.

Ainda assim, nunca passara pela minha cabeça trazer Estela para a minha cama. Não conhecia ninguém que houvesse feito isso, a ideia simplesmente não me ocorreu. Quem deu a sugestão foi meu marido. Na verdade, ele não chegou a dizer algo como: “Vamos trazer Estela para dormir conosco, em nossa cama.” Mas, me vendo tão cansada, numa dessas vezes ele foi buscá-la para mim no berço e a trouxe até nossa cama, perguntando-me se eu não gostaria de amamentá-la deitada. Daí para alargar meus horizontes e deixá-la na cama de vez foi um pulo. Essa decisão não arruinou nosso casamento, ao termos negada a tal “privacidade imprescindível ao casal”. Ao contrário: como ambos acreditávamos na importância do aleitamento, tratava-se de mais uma crença em comum a alimentar nossa cumplicidade. Sei que algumas mulheres que gostariam de praticar a CC não contam com o apoio do companheiro nessa situação. Mais uma vez reforço a importância do acesso à informação. Se algo tiver o poder de convencer os resistentes, será o conhecimento dos benefícios da prática.

Mães e bebês estão evolutivamente adaptados para dormirem lado a lado. A cama compartilhada faz parte do nosso contexto evolutivo, é o modo de melhor prover nutrição e proteção noturna ao altamente imaturo bebê humano. É um comportamento universal. Seja no Japão, em países africanos, ou entre povos indígenas da América Latina, os bebês dormem com suas mães. Nós mesmos, ocidentais, trazíamos nossos filhos para dormir conosco até cerca de 200 anos atrás (35, 55). Ainda trazemos, na verdade. Mas agora é escondido. No norte da Inglaterra, aproximadamente 48% das mães praticam CC no primeiro mês de vida do filho, apesar de 0% dos pais de primeira viagem terem previsto que a praticariam. Do segundo filho em diante, 35% dos pais previam a prática (3). McKenna atesta que, nos EUA, a CC atingiu cerca de 50% graças às campanhas pró-amamentação. E que, na Suécia, cerca de 23% dos bebês com três meses de vida dormem com a mãe regularmente (42). Ou seja, apesar de toda a reprovação social, mais mães do que imaginamos a praticam, mas não admitem por ser um assunto tabu.

De uma perspectiva evolutiva, a amamentação e o contato mãe-bebê durante o sono são elementos de um mesmo sistema adaptativo, e combinados encorajam sincronia e sensibilidade recíproca de mãe e filho durante o sono. A mãe nutriz, ao compartilhar a cama com seu bebê, naturalmente o posiciona de barriga para cima ou de lado (nesse caso, a posição é inócua, pois o próprio corpo da mãe forma uma barreira que impede que o bebê role), jamais de bruços, pela impossibilidade de amamentar o bebê nessa posição. E isso desde o início da humanidade, e não a partir nos anos 90, quando a relação entre dormir de bruços e morte súbita foi reconhecida, e as campanhas para pôr os bebês no berço de barriga para cima tiveram início. Bebês que compartilham a cama com sua mãe mas não são amamentados não usufruem dessa proteção, afinal, a mãe não tem motivo para deitar o bebê na posição dorsal, a não ser que seja especificamente orientada. Na díade mãe nutriz/bebê, o bebê fica no nível do peito da mãe, portanto abaixo do nível dos travesseiros (e protegido do perigo de sufocamento) 100% do tempo. Já a mãe que compartilha a cama com o bebê, mas não o amamenta, posiciona-o na altura de sua cabeça, portanto no nível dos travesseiros, 70% do tempo (42). Mais uma vez, é preciso orientação direta para um comportamento que de outra forma é espontâneo.

Um estudo conduzido por Ball (3) com mães praticando cama compartilhada ainda no hospital, após darem à luz, mostrou que todas as nutrizes, inclusive primíparas, assumiam a mesma posição (espontaneamente, sem qualquer orientação prévia): deitadas de lado, joelhos flexionados logo abaixo do bebê, braço estendido acima dele, mantendo-o na altura de seu peito, abaixo dos travesseiros (que podem causar sufocamento), criando com seus corpos um espaço protegido onde o bebê dormia. Devido à unanimidade e espontaneidade do comportamento, Ball o interpretou como inato.

Mães que dormem com seus bebês, mas os alimentam com fórmula, têm o rosto virado para seu filho apenas 59% por cento do tempo, enquanto que as que amamentam o fazem 73% do tempo. Os bebês que dormem sozinhos em seu berço, de dorso (barriga para cima), mantêm seu rosto voltado para a frente, para a direita ou para esquerda em iguais proporções durante à noite. Os amamentados que compartilham a cama com a mãe mantêm o rosto voltado para ela de 70 a 80% do tempo. Não se pode negar, assim, que mães e bebês da díade CC/amamentação exibem uma maior sensibilidade um em relação ao outro, fisiológica e comportamental. Essa sensibilidade, prossegue Mckenna (42), é uma característica evolutiva humana.

Então, por que a cama compartilhada, apesar de ter várias vantagens para o bebê, tem sido vista com maus olhos e desaconselhada por nossa sociedade em geral, profissionais de saúde aí inclusos? Porque o sono não é determinado apenas por necessidades biológicas. É também uma construção social. Onde vamos dormir, com quem vamos dormir, a que horas e por quanto tempo poderemos dormir.

Na nossa sociedade, a valorização da independência, privacidade e individualidade gera determinadas expectativas culturais em relação aos bebês. Ensiná-los a serem independentes é um dos maiores objetivos de nossa educação. E em que consiste a independência de um recém-nascido? Em sua capacidade de dormir sozinho – e se consolar sozinho, caso acorde no meio da noite. Esse é o primeiro marco da ambicionada independência. É esse o aprendizado que ele deve empreender. Alguns bebês protestam menos. Porém, se o bebê não se adapta, chora excessivamente, demonstra necessidade de contato na hora do sono, talvez venha a ser taxado de bebê “difícil”, “inquieto”, “que não dorme”. Mas isso é uma mera interpretação cultural, diante de uma expectativa social frustrada.

Nas outras sociedades, mais gregárias que a nossa, não se dá importância a que o bebê durma sozinho. Na verdade, um bebê dormindo só, apartado de sua mãe, causa choque a essas pessoas, como às mulheres maias que, ao tomarem conhecimento de que as crianças americanas eram deixadas sozinhas para dormir, consideraram o fato como abandono e negligência (44). São sociedades que não prezam a independência, mas a interdependência, a conexão entre as pessoas daquele grupo (35). Já o mote da criação ocidental é privacidade, individualidade, independência.

“No Japão, a criança é vista como um organismo biologicamente independente que, para se desenvolver, deve ser levado a relações de crescente interdependência com os outros. Nos Estados Unidos, a criança é vista principalmente como um organismo biológico dependente que, para se desenvolver, precisa adquirir uma crescente independência dos outros” (13).

Não estou dizendo que a cultura oriental é melhor que a ocidental. Até porque estou comparando um aspecto bastante pontual entre as duas culturas. Apenas que, no que tange ao sono dos bebês, se adequa melhor às necessidades biológicas destes.

“Todas as culturas são parciais, selecionam certas preferências e possibilidades humanas e omitem (ou sequer imaginam) outras. Todas se caracterizam por visões básicas de mundo, e presumem que sua perspectiva é real, concreta e correta: o ‘modo como as coisas são’” (35).

Não questiono o respeito à individualidade e o direito à independência. Porém, por mais bem treinado que um bebê de seis meses esteja a dormir sozinho, isso não o torna independente. Já os pais, esses, sim, ganharão certa independência à noite ao isolá-lo em seu quarto. O que coaduna perfeitamente com o discurso dito e repetido sobre a importância da privacidade do casal – que não pode ser invadida pelos filhos pequenos – para a preservação do casamento. Essa é justamente outra característica da sociedade ocidental atual que contribui para a preferência pelo sono solitário do bebê: a veneração do amor romântico.

Cultuamos o amor romântico. Aprendemos que a paixão é a experiência suprema, que trará significado e êxtase à nossa vida. Numa cultura materialista secularista como a nossa, em que privilegiamos explicações técnico-científicas do mundo, buscamos no amor romântico, mais do que na própria religião, a transcendência e a plenitude. Consideramo-lo o único amor capaz de gerar casamentos verdadeiros. Amor, casamento e felicidade viraram sinônimos (51). Segundo Robert Johnson (36), nossa sociedade é a única a considerar a paixão como o amor “ideal”, e a divulgá-lo como cultura de massa através de livros, filmes, músicas, anúncios (através dos quais, claro, temos exportado nosso “ideal” para outros povos). Ele não quer dizer com isso, lógico, que pessoas de outras culturas não se apaixonem umas pelas outras, mas que outras culturas valorizam menos esse sentimento, seja porque buscam a transcendência sobretudo através de outras práticas (religiosas, meditativas, etc.), seja porque não o considerem o principal pilar do casamento. Se o romance entre nós é uma religião, seu templo é o quarto do casal, que idealmente não deve ser profanado pelos filhos.

Também a vulgarização da psicanálise, com seus complexos de Édipo e Electra, contribuiu para a crença de que compartilhar a cama com os filhos é errado, talvez até incestuoso. Num artigo em que três profissionais que atuam com crianças opinam sobre a cama compartilhada, Calvin Colarusso (53), psicanalista, ao testemunhar sobre porque recomenda aos pais que o bebê tenha seu “cantinho” desde o dia do nascimento, diz que, entre dois e três anos, quando as crianças estão desenvolvendo uma identidade sexual, e tomando consciência das diferenças anatômicas entre os sexos, o contato noturno com os corpos dos pais pode ser um estímulo excessivo. Mas o que ele chamaria de estímulo excessivo? Se uma mãe carrega seu filho de dois anos nos braços, em contato direto com seu corpo, durante o dia, isso também constitui estímulo excessivo? Por que apenas o contato noturno constituiria perigo?

Anisfeld (2) pesquisou um grupo de mães americanas de baixa renda que deram à luz num hospital do centro de Nova Iorque. Logo após o nascimento de seus filhos, elas foram aleatoriamente divididas em dois grupos. As mães de um grupo foram presenteadas com um carregador de bebês de tecido (sling), e o outro grupo, com um carregador plástico (moisés) para bebês. Comprometeram-se a utilizar o presente diariamente, e a não alterná-lo com o outro tipo de carregador. O sling promove um contato físico maior entre mãe e bebê, uma vez que o bebê fica amarrado ao corpo da mãe, ao passo que no moisés o bebê é carregado sem nenhum contato com o corpo da mãe. Aos 13 meses, observou-se que 87% dos bebês do grupo do sling desenvolveram um apego seguro com suas mães (no teste da “situação desconhecida” de Ainsworth – ver capítulo 3), contra 38% do grupo do moisés. Parece haver um elo entre contato físico ampliado e apego seguro nas crianças. A cama compartilhada certamente amplia o contato físico da mãe com seu bebê. Ou seja, não é condição sine qua non para um apego seguro, mas essa é mais uma evidência de que ela é benéfica, não maléfica.

Colarusso (53), como não poderia deixar de ser, cita ainda as contra-indicações clássicas à cama compartilhada: inibe a independência da criança e a intimidade do casal. No entanto, não há estudos que demonstrem qualquer relação entre aprender a dormir sozinho e uma independência precoce.

Além dos fatores citados, devemos levar em consideração que, quando os exames eletrofisiológicos tornaram-se mais popularmente acessíveis e passaram a ser utilizados em estudos de polissonografia com bebês, nos anos 60, os EUA apresentavam a mais baixa taxa de amamentação registrada, com menos de 9% dos bebês deixando a maternidade ainda mamando no peito (42, 43).

A díade sono solitário no berço/mamadeira era o comportamento padrão e, como tal, foi eleita pelos pioneiros do estudo do sono infantil como seu modelo para estudar a fisiologia do sono dos bebês (lembramos que cientistas não existem boiando em um vácuo, mas inseridos num contexto cultural). Isso criou uma ciência circular: 1) Condição inicial do teste: bebê dorme sozinho, e tem pouco contato com os pais à noite (bem menos que no contexto da CC, em todo o caso). 2) Avalia-se o sono da criança nessas condições. 3) Repete-se as medidas, criando-se um modelo do sono dos bebês. 4) Publica-se um modelo clínico do sono dos bebês. 5) Esse modelo é disseminado tanto em compêndios de pediatria quanto em “manuais” dirigidos aos pais. 6) Para que seus filhos tenham um sono saudável, basta que os pais repliquem as condições do experimento. Assim, o princípio moral do sono solitário dos bebês foi validado cientificamente.

Pediatras e psicólogos que repetem que será prejudicial para a criança dormir ao lado da mãe estão, na verdade, priorizando expectativas culturais e ideologias pessoais, não as necessidades biológicas do bebê. Pior, condenam as crianças a um desmame precoce, em plena época de conscientização da importância do aleitamento materno.

Não sugiro a cama compartilhada compulsória, nem que as mães se sintam obrigadas à prática. A bem da verdade, se a mãe não pode ou não quer amamentar, não se recomenda a cama compartilhada, pois ainda não se sabe se a mãe que não amamenta pode ser artificialmente treinada a manter a mesma interação que a mãe que amamenta mantém com o bebê durante a CC. Da mesma forma, mães que bebem, fumam ou usam drogas estão comprometidas em sua capacidade de responder ao bebê durante o sono, oferecendo risco de esmagamento ou sufocamento (o que não é o mesmo que morte súbita – não há provas de que a cama compartilhada possa aumentar o risco de morte súbita).

Mckenna (43) e Ball (3) alertam que os artigos que tentam averiguar a relação entre a cama compartilhada e a morte de bebês (súbita ou por trauma) são imprecisos inclusive na definição do que seja CC, incluindo-se nas estatísticas desde os bebês que estavam sozinhos numa cama de adulto aos que estavam sozinhos em seus berços, mas haviam compartilhado a cama com um adulto em algum momento anterior da noite; bebês que compartilhavam a cama com mães que fumavam, bebiam ou eram usuárias de outras drogas, ou que não amamentavam; bebês que dormiam com as mães em sofás (considerados uma condição de risco per se) – sem qualquer cuidado em separar as diferentes situações e verificar o risco devido a cada uma, o que torna difícil a comparação dos números entre os diferentes estudos, visto que não há qualquer padronização entre eles.

Não há um arranjo superior ao outro, o melhor arranjo é determinado pelo ambiente. Nem a cama compartilhada é um risco em si, como muitas vezes é divulgado: é um tipo específico de ambiente, que pode ou não ser arriscado. Ao transformar o comportamento em tabu, dizendo aos pais apenas que não o pratiquem, não se discute com eles em que condições a cama compartilhada é (ou como torná-la) segura e em que condições deve ser evitada. E, assim, os pais têm que tomar a decisão de forma extremamente solitária, e muitas vezes sentindo medo e culpa.

Porém, se, por um lado, a cama compartilhada não é adequada a todos os casos, o berço ao lado da cama dos pais sempre é mais seguro que o sono solitário, e pode reduzir a SMSI (síndrome da morte súbita infantil) em até 50% (42). Ou seja, como aponta McKenna (43), a pergunta não é: “Será seguro para o bebê dormir com os pais?”; e sim: “Será seguro para o bebê dormir sozinho?”.

Advogo que a cama compartilhada seja defendida e divulgada pelo que é: importante e desejável para a saúde do bebê, assim como a amamentação. Na verdade, algo intimamente ligado à amamentação. Tais defesa e divulgação não vão criar uma ditadura nem obrigar as mães a dormir com seus filhos – da mesma forma que, apesar da massiva campanha pró-amamentação, a decisão de amamentar ou não continua a ser da mãe. Que a mãe que queira amamentar e praticar a CC seja estimulada e encorajada, e nunca levada a sentir culpa com a prática, a acreditar que está fazendo mal à criança, estragando-a, prejudicando seu desenvolvimento. Que, ao invés de criticadas, sejam apoiadas, recebam orientações e tenham o direito a decisões informadas.


* Na cama compartilhada (CC), o bebê e a mãe dormem numa mesma cama de casal ou outra superfície firme como futons (sofás oferecem perigo). No quarto compartilhado, mãe e bebê dormem no mesmo quarto, mas não na mesma superfície. Por exemplo, o bebê dorme num berço ao lado da cama da mãe.

* Academia Americana de Pediatria

 

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